18 de abr de 2013

ADVOGADO "VERSUS" CLIENTE


            

              [ PEDRO LUSO DE CARVALHO ]



        O jovem advogado está longe de conhecer o elenco de problemas que o espera no exercício da advocacia, no que diz respeito ao seu relacionamento com os seus futuros clientes, problemas esses que vão desde a preocupação que têm sobre o que consta no instrumento procuratório, na parte reservada aos poderes que outorgam (nesse caso, mostram-se preocupados quando lêem que o outorgado recebe “amplos poderes para a ação”), passando pela assinatura do contrato de honorários (um dos momentos mais sensíveis na relação entre o advogado e o cliente), pela desconfiança que têm sobre a honestidade do advogado (desconfiança essa que se constituirá em pano de fundo durante o tempo em que a ação ajuizada estiver tramitando), até a sua capacidade - sempre imaginam que o advogado não está fazendo o suficiente para o êxito da demanda.

        Como cada um desses problemas, que envolvem o advogado e seus clientes, também não podem ser descritos num pequeno espaço como este, hoje me restringirei ao último que mencionei, qual seja, a desconfiança dos clientes quanto à capacidade do advogado. Apenas sobre esse item também muito pode ser dito, por isso restrinjo-me a discorrer apenas sobre a “ajuda” que os clientes procuram dar ao seu advogado, preocupado que estão sobre o resultado da demanda: não são poucos os que pedem que seus advogados escrevam e falem muito (iludem-se os que pensam que o bom advogado é aquele que escreve e fala muito), embora não saibam em quais momentos processuais é permitido ao advogado escrever e falar, acostumados que estão com novelas e filmes nos quais o advogado defende seu constituinte no Tribunal do Júri, no qual falar muito (e bem) é de inegável importância.

        Preocupei-me acima em dar realce que esses problemas, que ainda não são do conhecimento do jovem advogado (pelo menos não o são em toda sua extensão), por que aqueles que por longos anos militam na advocacia conhecem sobremaneira esse problema relacionado com a dúvida que os clientes têm sobre a capacidade profissional de quem os representa. Então, vamos ver o que, sobre o assunto, e de modo especial no que se refere a escrever muito, tem para contar-nos o célebre advogado e jurista italiano, Piero Calamandrei, com a crônica que integra a sua obra “Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados”:

        “Queixam-se os juízes de que os advogados escrevem demais, e quase sempre têm razão. Mas enganam-se se atribuem este excesso a verbosidade natural dos advogados ou, de preferência, ao seu desejo de um maior lucro. Os juízes não sabem quanta desta prolixidade é devida às pressões do cliente e qual a soma de paciência que o advogado tem de ter para não flectir, às insistências de quem avalia a excelência da defesa pelo número de folhas escritas.

        Lembro-me agora da frase de uma gentil senhora, que depois me ter explicado pela décima vez os argumentos, que em sua opinião deviam interessar à sua defesa e já no limiar da porta, parou e sorrindo-me suplicou: - Doutor, não se esqueça: escreva muito”.




REFERÊNCIA:
CALAMANDREI, Piero. Eles, os juízes, vistos por nós, os advogados. Tradução de Ary dos Santos. 4ª ed. Livraria Clássica Editora: Lisboa, Portugal, 1971, p. 111-112.



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